Cultura e Esporte

De Volta ao Lar

Escrito por Redação

O mais novo filme da franquia estréia amanhã e não é possível analisar Homem-Aranha: De Volta ao Lar sem considerar a conjuntura existente por trás do filme. Desde que o Universo Cinematográfico Marvel começou a ser instituído, lá em 2008, cada peça foi planejada de forma que, paulatinamente, formasse um grande quebra-cabeças envolvendo os super-heróis da editora, no melhor estilo já existente nos quadrinhos.

Com duas versões na bagagem, as estreladas por Tobey Maguire e Andrew Garfield, a saída para entregar um novo Aranha foi investir forte em seu lado adolescente, que conquistou milhões de fãs tão logo o personagem surgiu nas HQs, nos anos 1960. Habilmente, a Marvel abriu mão de recontar a origem do personagem e resolveu apresentá-lo fora de uma aventura-solo, como uma espécie de teste. Deu certo: o Aranha de Tom Holland foi um dos destaques de Capitão América: Guerra Civil, deixando um gostinho de quero mais.

De Volta ao Lar traz um esforço para situar o Aranha e seu ambiente dentro do universo já estabelecido pela própria Marvel. Não por acaso, o filme inicia logo após os eventos mostrados no primeiro Os Vingadores, de forma a criar uma camada extra à ambientação já conhecida: além dos super-heróis, há pessoas normais (ou quase) que precisam, cada uma à sua maneira, lidar com a existência destes “deuses modernos” seja a partir da admiração ou da mera sobrevivência. É a partir desta realidade underground que surge o Abutre, supervilão cujo nome de guerra jamais é dito, que possui sua origem intrisecamente ligada à existência dos próprios Vingadores. Da mesma forma, é pelo mesmo motivo que o eterno coadjuvante Happy Hogan (Jon Favreau) é alçado a um posto (um pouco) mais importante que o convencional: a ideia é dar voz aos que orbitam o Olimpo, sem descartar que algum de seus integrantes possa, um dia, alcançá-lo. Leia-se, Peter Parker.

Tal preocupação em atar nós dentro da cronologia pode parecer mero detalhe, mas representa muito no modo de agir da Marvel – e, da mesma forma, serve como linha conceitual por trás deste novo Homem-Aranha. Agora como uma espécie de pupilo de Tony Stark, mais uma vez desfilando seu carisma em piadas rápidas, o atual Aranha possui toda uma narrativa milimetricamente construída de forma que, mesmo com profundas mudanças em relação à sua origem – em relação às HQs -, ainda assim seja um personagem reconhecível pelo que representa – e, da mesma forma, uma versão diferente das vistas anteriormente. É quando entra em cena o grande trunfo do longa-metragem: o humor.

Construído como uma típica aventura juvenil, De Volta ao Lar encarna com brilhantismo o espírito adolescente dos dias atuais através de um Tom Holland radiante e irresistível, seja pela ansiedade em ser e lidar com os tais deuses que venera ou pela própria insegurança decorrente da pouca experiência. Com citações a clássicos dirigidos por John Hughes, como Curtindo a Vida Adoidado e Clube dos Cinco, De Volta ao Lar encampa sem medo o clima de amizade nerd em uma faixa etária onde já há o interesse amoroso, mas sem se tornar (ainda) sexual, por mais que haja uma citação (implícita) aqui e ali. É a partir das descobertas de Peter em ser o Homem-Aranha, e da excitação inerente pelos seus poderes e atos realizados, que o filme brilha intensamente, provocando gargalhadas com gosto.

Ainda neste sentido, é importante destacar Ned, interpretado pelo ótimo Jacob Batalon. Melhor amigo de Peter Parker e nerd escancarado, seus trejeitos e expressões representam o fascínio das tais pessoas normais diante da grandiosidade do que ocorre diante de si. Ele e todo o núcleo adolescente dão ao filme uma textura saborosa, não só por representarem arquétipos típicos da juventude mas, também, pela coesão existente entre eles. Méritos para o belo processo de escalação do elenco, não só pela qualidade na seleção sem se ater ao cânone dos quadrinhos – especialmente em relação a Flash Thompson -, mas também pela preocupação em promover diversidade dentro deste núcleo.

Entretanto, se De Volta ao Lar brilha intensamente ao retratar o universo juvenil estrelado por Peter Parker, ele falha quando precisa focar no Homem-Aranha. Por mais que se compreenda as necessárias mudanças decorrentes da inserção do Cabeça de Teia no Universo Cinematográfico Marvel, e esta narrativa até seja apresentada de forma coerente, há no filme um exagero (intencional) no uso de apetrechos tecnológicos que, de certa forma, apequena quem está por trás da máscara. É claro que as habilidades de Peter Parker estão lá, assim como a necessária coragem em fazer o certo, mas o uniforme fabricado por Tony Stark traz consigo um sem-número de muletas narrativas que, por mais que até sejam divertidas e de novo ressaltem a típica impaciência juvenil, diminuem o herói. Em alguns momentos, é como se ali não estivesse o Aranha, mas um garoto corajoso qualquer vestindo seu uniforme – e isso incomoda bastante.

Por outro lado, a própria condução da história aponta que tal situação seja intencional, e temporária. Por mais que não traga o beabá sobre a picada da aranha radioativa e a morte do tio Ben, De Volta ao Lar pode também ser considerado um filme de origem, para este Aranha dentro deste universo cinematográfico. É como se o herói que conhecemos ainda estivesse a eclodir e que o exibido neste longa-metragem seja apenas um prenúncio do que está por vir, ou do que pode vir.

Com muito Peter Parker e pouco Homem-Aranha, De Volta ao Lar é um filme que diverte bastante, mas está longe de ser a melhor aventura estrelada pelo herói aracnídeo – os dois primeiros filmes dirigidos por Sam Raimi ainda estão na dianteira. Com Tom Holland completamente à vontade e um elenco coadjuvante coeso e convincente, trata-se de um início com o pé direito neste universo juvenil agora habitado pelo Cabeça de Teia nas telonas que, desde já, conta com o auxílio luxuoso do Universo Cinematográfico Marvel já estabelecido, seja em seus cânones ou na habitual competência na execução. Muito bom.

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