Cultura e Esporte

O nu e o sensual pelo olhar feminino

Escrito por Dani Dornelas

Trabalho com fotografia há 12 anos, recentemente minha visão sobre a fotografia mudou muito e decidi fazer um trabalho que trouxesse um retorno também emocional, que não fosse simplesmente “apertar um botão”. Comecei a me interessar por retratos femininos e fotógrafas mulheres. Minha primeira referência foi o trabalho de Francesca Woodman, que despertou em mim o desejo de fotografar mulheres nuas, e Vivian Maier mudou meu senso criativo como retratista. É realmente emocionante analisar a imagem dessas duas mulheres.

Reencontrei-me no trabalho dessas mulheres. Com as imagens femininas que estava acostumada a ver (e que sempre me causaram um certo incômodo) reproduzidas pelos meios de comunicação na publicidade em todos os espaços públicos e privados, percebi um norte em relação ao que eu queria como profissional e inclusive como penso o “ser mulher”. Não quero retratar mulheres como objetos decorativos, que estão puramente para satisfazer desejos masculinos, ou despertar o olhar para o símbolo sexual do erotismo.

E como forma de me encontrar e de me redefinir, também uso a fotografia para essa construção-denuncia: nós mulheres estamos em constante busca de nós mesmas. E que, essa busca não seja definida pelo olhar do outro que nos subjuga, mas que seja um olhar definido pelo que temos e podemos dizer de nós mesmas. Como disse Simone de Beauvoir na introdução do seu livro (O segundo Sexo):

Se quero me definir, me vejo obrigada a dizer, em primeiro lugar: sou mulher.

“Essa verdade constitui o fundo sobre o qual se verga toda outra afirmação. Um homem não começa nunca por plantear a si mesmo como um indivíduo de certo sexo (…) o homem representa ao mesmo tempo o positivo e o neutro, ao ponto de que no idioma francês se diz “os homens” para designar os seres humanos, posto que o sentido singular da palavra “vir” se assimila ao sentido geral da palavra “homo”. (…) A humanidade é macho, e o homem define a mulher não em si, mas em respeito a ele mesmo; não a considera como um ser autônomo. (…) E ela não é nada fora do que o homem decide; assim, a denomina “o sexo”, como dar a entender que se parece ao macho essencialmente como um se assexuado; ela é sexo para ele, e assim é em absoluto. A mulher se determina e se diferencia com relação ao homem, e não este em relação a ela; esta é o in-esencial frente à essência. Ele é Sujeito, ele é o Absoluto: ela é o Outro.”

Personalidade, autenticidade, presença de ser político-ativo é o que encontrei nas referências das artistas que citei a princípio e é isso o que busco em mim e nas mulheres que retrato. Não uma sexualidade e sensualidade relegada a um papel passivo, onde ela – o meu objeto percebido – não é mais que um meio para que o homem obtenha prazer, para reafirmar seu papel dominante. As mulheres que procuro retratar são seres ativos, sujeitos de suas próprias narrativas. Procuro nelas a manifestação consciente da sensualidade e afetividade de si para si, assim como que busco em mim.

Ensaio fotográfico de Dani Dornelas

P.S.: Agradeço imensamente a todas as mulheres que tem sido parte desse motor criativo e de mudança na minha vida. Poder estreitar laços afetivos de amizade, cumplicidade e solidariedade com mulheres têm sido um aprendizado revolucionário na minha vida. A todas um abraço fraterno!

Sobre o autor

Dani Dornelas

Trabalho com fotografia há 12 anos, recentemente minha visão sobre a fotografia mudou muito e decidi fazer um trabalho que trouxesse um retorno também emocional, que não fosse simplesmente “apertar um botão”.

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