Negócios

Artesãos do malte e do lúpulo

Escrito por Natalia Carvalho

Conheça a história das cervejarias artesanais Brüder e Confraria de Minas.

Por Natália Carvalho

2006 foi uma ano decisivo na vida da Rafael Patrício. Ele, mais seis amigos, se juntaram e encomendaram um kit para produzir cervejas pela internet. Um ano depois, nascia a pioneira do Vale do Aço, a primeira cerveja produzida na região.

O amor pela cerveja levou Rafael a um novo hobby porém, diferente dos amigos, ele passou a levar a produção a sério. “Eu gosto de beber cerveja, por isso dei início à produção caseira, mas logo senti que isso se tornaria um modo de vida. Passei a sonhar com aquilo”, conta. Três anos depois, já completamente envolvido nesse mundo, Rafael passou a ser destaque em diversos concursos, o que o levou até os irmãos Souza e a um convite que mudaria a sua vida.

Rafael Patricio, cervejeiro da Brüder

Rafael Patricio, cervejeiro da Brüder.

Um ano produzindo cerveja juntos, Rafael e os irmãos Souza abandonaram os métodos caseiros e deram início a uma produção em escala de micro cervejaria. Ali, nascia a Cervejaria Brüder. Nome escolhido por ele, Rafael revela que o intuito da escolha era homenagear os irmãos Rildo, Rogério e Robson Souza: “Brüder é uma palavra alemã que significa “irmãos”. Ao mesmo tempo que homenageia, ilustra o conceito de cervejaria de produção familiar”, conta.

De um prazer dos finais de semana e fins do expediente, hoje, a cerveja tornou-se a ocupação de Rafael. Para muitos, um sonho. Entretanto, a realidade é bem distinta. “Nada pior que chegar nove horas da manhã precisando de um café e ter que beber amostras de cerveja à 16°C“, brinca Rafael. Como cervejeiro, ele precisa estar pronto para beber todos os dias, porém, sendo a base da análise sensorial o cheiro, em raras situações a degustação é relevante, depende do momento, por exemplo, é preciso beber quando o produto está prestes a ser engarrafado, com o intuito de aferir o gás.

Da esquerda para a direita- Vanessa (esposa de Aubrey), Aubrey, Thais (noiva de Ronald) e Ronald

Da esquerda para a direita: Vanessa (esposa de Aubrey), Aubrey, Thais (noiva de Ronald) e Ronald.

Outra cervejaria do qual a história passou pelo Vale do Aço é a Confraria de Minas. Atualmente em Belo Horizonte, a empresa nasceu das idealizações dos amigos Aubrey e Ronald.

Em 2014, Aubrey começou a produzir cervejas em casa. Ele juntou as panelas, fez cursos sobre o assunto e arriscou a criar as próprias receitas. Já o interesse de Ronald surgiu quando lançaram a Bohemia Confraria, em 2005. Morando em Timóteo na época, ele foi até Belo Horizonte aprender mais sobre a produção de cervejas. Além dos pequenos cursos, hoje Ronald tem os certificados de Sommelier de Cervejas, pós-graduação em Tecnologia Cervejeira e Juiz BJCP, ou Beer Judge Certification Program.

De pequenas produções para consumo próprio, a demando foi crescendo, as panelas foram ficando pequenas e, com novas receitas sendo criadas, a paixão pelo hobby apenas aumentava. Duas marcas, Confraria Itabirana, que seria lançada por Aubrey, e Bicho Preguiça, do qual seria lançada por Ronald, juntaram-se em uma só identidade, a Cervejaria Confraria de Minas. Confraria, por definição, é associação ou conjunto de pessoas do mesmo ofício, da mesma categoria ou que levam um mesmo modo de vida. Neste caso, dois amigos com interesses cervejeiros em comum: transformar uma paixão em profissão.

Além da Confraria de Minas, Ronald também trabalha como especialista em automação industrial, porém, Aubrey, do qual tinha um escritório de engenharia com o irmão, hoje dedica-se exclusivamente à cervejaria. Mas o que faz alguém abandonar a profissão e investir em um hobby que, no mercado atual, é dominado por grandes empresas?

Mesmo atualmente saturado, esta é a hora de investir no mercado cervejeiro. De acordo com uma pesquisa realizada pela Instituto da Cerveja Brasil, o nosso país ocupa a terceira posição no mundo em volume total de cerveja, produzindo 138,8 milhões de hectolitros por ano. E, apesar da queda do mercado para as grandes empresas, a procura pelos produtos artesanais só vêm aumentando.

Só em Minas Gerais a concorrência é grande. A cerveja Wäls, comandada pelos irmãos Tiago e José Felipe de Belo Horizonte, recebeu em 2014 o prêmio de melhor cerveja dubbel na World Beer Cup, a copa do mundo da cerveja, realizada a cada dois anos nos Estados Unidos.

Muito apreciada no Brasil e no mundo, Wäls é uma das cervejas favoritas do assistente financeiro Victor Magalhães: “A Petroleum da cervejaria Wäls é uma cerveja que tenho um carinho especial, primeiro porque foi uma das primeiras artesanais que conheci e depois porque, dentro do estilo dela, é a que até hoje me agradou mais”, conta.

Victor teve o primeiro contato com as cervejas artesanais através de amigos, o que despertou a vontade de estar conhecendo mais deste mundo. Infelizmente, por ser um pouco mais cara que as cervejas tradicionais, seu orçamento não permite o consumo com frequência. Porém, ele faz questão de saborear ao menos três ou quatro vezes ao mês algum tipo de cerveja artesanal.

O público quer mais cervejas independentes, entretanto, ainda é bem difícil para os microprodutores. “O malte e o lúpulo, importados, custam até quinze vezes mais do que a matéria-prima usada por cervejarias tradicionais, que usam malte nacional e adicionam outros cereais, como milho, nas receitas. A carga tributária imposta é altíssima, e acabamos obrigados a cobrar mais do que gostaríamos”, explica Ronald.

De acordo com Rafael Patrício, isto não é de hoje, as macro cervejarias começaram a engolir as pequenas fábricas desde a década de noventa, sempre visando morder, por menor que seja, cada fatia do mercado. Nessa competição, ainda é incerto o futuro das pequenas cervejarias. “2017 será um ano decisivo para sabermos se a crescente continua e se as novas empresas sobreviverão”, completa Rafael.

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UM BRINDE AOS ARTESÃOS!

Pedimos ao nossos entrevistados que recomendassem algumas de suas cervejas para os leitores da Revista Mente Ativa. Seja amante das cervejas artesanais, ou inexperiente nesse assunto, vale a pena a pedida!

Brüder: “A Pilsen, em geral, é a cerveja mais popular. Também temos no portfólio uma Weizen, estilo clássico alemão, que é a primeira cerveja “diferente” que as pessoas provam. Nossa weizen, premiada na Copa América de cervejas, é de fato um exemplo clássico do estilo. Para os mais ousados, indicaria a nossa Red Lager que, apesar de vermelha e amarga, é a nossa cerveja mais procurada. Premiada nacionalmente e internacionalmente essa cerveja é, de fato, apaixonante!”

Cervejaria Confraria de Minas: “Em cada receita acrescentamos especiarias, preferencialmente da cultura brasileira e mineira, como a adição de rapadura e casca de laranja na nossa Blond Belga, cacau maturado em cachaça mineira na nossa Porter, baunilha maturada em whisky Jack Daniel’s na nossa Dubbel, e assim por diante. Mas temos uma cerveja que, literalmente, inventamos, trata-se da Rocket Queen, uma Specialty Beer que possui um aroma marcante de manga e maracujá, lembrando as famosas IPAs, porém com um amargor sutil e equilibrado.”

ONDE ENCONTRAR

As cervejas artesanais são encontradas em sua maioria em sites oficiais ou especializados, ou em eventos, como o 1º Encontro de Beer & Food Solidário, que aconteceu dia 21 de Janeiro em Ipatinga, Minas Gerais. Entretanto, alguns supermercados já tem disponível uma variedade razoável destas cervejas. Descubra onde encontrar a Brüder no site: http://cervejariabruder.com.br/, e a Confraria de Minas no site: http://www.confrariademinas.com.br/.

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